segunda-feira, 13 de julho de 2015

O corpo elétrico

            Na maioria dos dias tenho que tomar cuidado, atentar-me, mais do que nunca, às minhas ações e verificar, de modo racional, as possíveis consequências dos meus atos. Essa preocupação redobrada se faz necessária nesses dias, onde me sinto possuidor de uma energia ilimitada, que borbulha dentro de mim espalhando-se para todas as partes do meu corpo e fazendo com que eu aja impetuosamente, potentemente, ultrapassando, e muito, as minhas condições físicas e intelectuais; nesses dias, sinto como que preparado para um esvanecer espontâneo, pronto para me pulverizar em prol de uma causa que atraia toda essa energia que parece ser muito, mas muito mesmo, maior do que eu.
            Quando me encontro nessa condição, que está se tornando cada vez mais recorrente, meu coração bate em um ritmo selvagem, não consigo ficar parado e quando falo emito um som de trovão, um som gutural, que vem direto da alma e expressa, sem a necessidade de palavras, tudo aquilo que sinto. Quando me distraio, nem que seja por um momento, meu corpo começa a se mover involuntariamente, acompanhando o ritmo de um fluxo interno intenso, minha respiração se torna rápida e ofegante e é preciso que eu me concentre novamente, para conter todo esse ímpeto profundo, voraz e selvagem.
            Por causa dessa iminência (que se tornou constante) de me consumir por completo, sucumbindo perante uma força muito maior do que eu, é preciso que eu redobre minha atenção e estabeleça, de forma racional, as minhas limitações. Um corpo elétrico é uma bênção e uma maldição, ao mesmo tempo.

terça-feira, 7 de julho de 2015

O ser incomum

O ambiente não era diferente do comum; várias pessoas, todas elas cheias de frustrações e ódio, perambulavam sem rumo. Para aquelas pessoas o intervalo era o pior momento do dia, pois as obrigava a pensarem por si próprias, obrigava-as a agirem por livre e espontânea vontade, sem terem de obedecer a alguma ordem, e isso incomodava todos aqueles que se encontravam no refeitório, durante o intervalo.
O refeitório sempre estava impecavelmente organizado, todos os utensílios estavam postados em seus devidos lugares, proporcionando, com intenção, a transmissão de um ar de harmonia; no chão não se encontrava sequer uma mancha, assim como nas paredes, que eram brancas e, por causa da boa iluminação do recinto, capazes de ofuscar a vista de quem se atrevesse a fixar seu olhar por muito tempo nelas. Para aquelas pessoas ali presentes, que conseguiam julgar apenas através da aparência das coisas, o ambiente era e impecável, e expressava as qualidades inquestionáveis que a empresa possuía.
Além de transmitir uma imagem superficial e de fácil compreensão para a mentalidade superficial dos funcionários, toda a organização, harmonia, limpeza, de forma sucinta: toda a preocupação com a aparência dos ambientes da empresa eram intrinsicamente necessárias. Todas aquelas pessoas, que frequentavam o refeitório, estavam prontas para odiar, prontas para despejarem, em outrem, todas as suas frustrações, e, para que isso não ocorresse dentro da empresa, era preciso que o ambiente fosse o mais aconchegante possível, de forma que não incitasse o aparecimento de algumas dessas sensações destrutivas, que estavam presentes em excesso na maioria dos funcionários da empresa.
Mesmo deparados com uma instabilidade constante, onde o ódio se mostrava sempre pronto para emergir, as pessoas de davam bem entre si, na medida do possível. Todas elas possuíam a mesma visão de mundo, nutriam os mesmos ideais, valorizavam a si mesmas acima de tudo e sempre mascaravam seus verdadeiros sentimentos. Essa compatibilidade impecável fazia com que todos se sentissem, de alguma forma, mais próximos, mais parecidos, o que os impedia de externarem todo o seu ódio, pois consideravam todos ao redor como semelhantes, como companheiros que estimulavam os conceitos e o ideais mais profundos. No entanto, todo o ódio e as frustrações não deixavam de ser externados. Constantemente aquelas pessoas se revoltavam com a política, com algum time de futebol, com alguma celebridade, etc.; eles sempre encontravam algo para desprezar, algo para transferir todos os seus sentimentos de impotência, de desespero e de mediocridade, que não eram poucos.
Após essa breve análise, podemos classificar a empresa como sendo tranquila, onde um ambiente aconchegante, a semelhança dos ideais e o direcionamento do ódio para objetos longínquos propiciam uma atmosfera sem sobressaltos, serena e, para a alegria de todas aquelas pessoas dotadas de uma percepção lenta, estável, praticamente imutável.
Entretanto, mesmo no paraíso fixo das almas egocêntricas as coisas correm o risco de sofrerem uma mudança abrupta, e foi isso que ocorreu com o ambiente sereno daquela empresa; um ser incomum foi inserido naquele ambiente, comum em demasia, e tudo mudou. Ele, que possuía um semblante despreocupado, andava de maneira magnânima pelos corredores da empresa. Sua atitude tranquila e cínica, referente aos valores vigentes e almejados pela grande maioria dos funcionários, incomodava a todos, que encontraram nesse homem incomum uma mentalidade que, por ser diferente, ameaçava todos os ideais que eram mantidos cegamente, e que evitavam a falta de sentido, assim como evitavam o desespero. O jeito despojado e feliz de levar a vida, e a ameaça aos ideais que todos mantinham inquestionáveis em suas mentes, e que eram utilizados como subterfúgio para afugentar as verdades desoladoras da vida, o que permitia que todos fossem capazes de evitar encarar de frente suas existências mal resolvidas e medíocres, fez com que todas as pessoas odiassem o novo funcionário. Pela primeira vez, em muito tempo, um objeto para onde seria direcionado todo o ódio se encontrava próximo, encontrava-se precisamente ao lado, ao alcance de um soco, ao alcance da violência mais irracional e descabida. E foi esse o caso.
Em apenas dois meses como funcionário, o homem incomum havia causado um rebuliço inimaginável. Todas as frustrações, todos os problemas, eram atribuídos a ele. Toda vez que o ser incomum adentrava alguma repartição, as pessoas relatavam um sentimento ruim, uma espécie de “ambiente pesado”, e isso era confirmado em coro, por todos que tinham contato com ele.
Com o passar do tempo a situação se tornou ainda mais catastrófica. Todo mundo tentava estruturar o caráter do ser incomum, e sempre construíam os personagens mais esdrúxulos, mais bizarros e malévolos, sem possuírem um único motivo para tanto. Para se ter uma ideia, até mesmo a forma como o ser incomum bebia água era utilizada como base para a elaboração de uma característica pessoal que demonstrava uma maldade sem fim. Por fim, todos os gestos eram deturpados para que as pessoas conseguissem enxergar aquilo que elas gostariam de enxergar; o motivo de toda essas deturpações era o questionamento que o ser incomum incitava nas pessoas à sua volta. Vendo seus valores absolutos sendo testados, essas pessoas se apressavam e não hesitavam em tentar desmerecer e rebaixar aquele que incitava o questionamento, até que ele não mais fosse valorizado a ponto de causar um mal-estar conceitual. No entanto, a desvalorização era tão absurda que criava um indivíduo digno de ser responsável por todas as frustrações, tornando-o o alvo perfeito para o ódio ilimitado e para as transferências que protegiam o ego de se sentir impotente, ambas características presentes na maioria dos funcionários.
Ao fim do terceiro mês o ser incomum já havia recebido um apelido, ele era conhecido por todos como sendo o monstro. Ele se tornou o responsável por todos os acontecimentos ruins, que iam desde o café que foi derramado no chão até, pasmem, à nota baixa do filho de um dos funcionários. As demonstrações de desprezo contra ele se tornavam cada vez mais explicitas. Constantemente ele se via obrigado a se livrar de agressores, tanto verbais como físicos, assim como se via obrigado a ignorar insultos gratuitos, que eram pronunciados por todos.
Mesmo com um ambiente completamente hostil à sua volta, o ser incomum se mostrava inabalável, deixando transparecer toda a sua vivacidade, toda a sua alegria pura e sincera. A construção conceitual incoerente, feita pelos funcionários, mostrava o quanto o ser humano é capaz de acreditar em qualquer coisa que deseja, que se propõe a acreditar. Aquele que era considerado o pior ser humano do mundo parecia um santo quando analisado por alguém que possuísse uma interpretação imparcial. Incapaz de odiar, ele possuía um sorriso fraternal, que era interpretado por todos os funcionários como sendo o sorriso de um demônio.
A permanência do ser incomum naquela empresa, que já vinha sendo direcionada para uma estada curta, por causa daquilo que sua constituição incomum causava nas pessoas à sua volta, chegou, finalmente, ao fim, de fato. Durante o almoço, um funcionário, sentado a três mesas de distância do ser incomum, deixou cair sua bandeja, esparramando uma grande quantidade de comida pelo chão, que estava impecavelmente limpo; sem se preocupar em limpar toda aquela comida que estava no chão, o funcionário se dirigiu, cheio de ódio, até a mesa do ser incomum, e, transbordando de raiva, começou a xingar à plena voz.
“Você é o culpado de tudo isso, seu merda, seu monstro! Todos te odeiam, você é o mal da humanidade, você é um monstro do mal, Judas!”
O ser incomum olhou de forma indiferente para aquele interlocutor exaltado, e após uma interrupção de em torno de 5 segundos, voltou a se alimentar despreocupadamente. A sua atitude de indivíduo intocável irritou ainda mais o funcionário exaltado, que tentou partir para cima do ser incomum, mas foi interrompido por outros funcionários.
O acontecimento repercutiu quase que instantaneamente. Todos diziam que o ser incomum era o culpado, explicando que isso foi demonstrado pela maneira como ele se portou perante o confronto, entre ele e o funcionário prejudicado por ele. Todos diziam que aquele semblante sereno e indiferente, durante uma discussão, era digno de alguém que, com certeza, era culpado, e essa afirmação foi defendida por todos, por mais incoerente que possa parecer. Entretanto, que culpa o ser incomum tinha ninguém sabia, mas todos o julgaram culpado.
A diretoria, que se incumbiu de cuidar do caso, decidiu demitir o funcionário que foi acusado por todas as pessoas que presenciaram a confusão. Após quatro meses a empresa recuperou sua atmosfera habitual, as coisas voltaram a ser como eram, sofrendo apenas uma única mudança, o ser incomum ser tornou, para muitos, uma imagem responsável, para sempre, por todos os acontecimentos ruins, uma imagem abjeta e permanente, para onde era direcionado todo o ódio.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Aqueles que nunca realmente existiram

            “A maioria das pessoas nasce póstuma.”; essa expressão me encantou desde a primeira vez que a vi, e o motivo não é muito difícil de compreender.
            Eu, que sempre fui um observador atento, possuía essa expressão em suspenso na minha mente; ela permanecia escondida, ainda desconexa, até que me deparei com um livro escrito por Nietzsche, que fez com que essa expressão emergisse cheia de potência, na minha mente. O texto era preciso, consciente, e a frase no fim expressou, de modo sucinto, tudo aquilo que o autor queria dizer.
            O ser humano é uma espécie rara, e em extinção; a chandala domina o mundo, cria valores e afugenta todos aqueles que tenham o mínimo de consciência. A realidade é reservada para os indivíduos póstumos, que já nasceram mortos.

Fim de tarde

           Em um dia normal, de clima quente, com um céu azul, contendo algumas poucas nuvens, que dançavam harmoniosamente, alterando-se a todo o momento e podendo ser interpretadas das mais variadas formas, dependendo apenas do observador e da sua maneira de pensar. Todos os fatores materiais eram comuns, e não possuíam nenhuma anomalia gritante, que fosse capaz de descaracterizar aquele dia como sendo um dia corriqueiro. Mas quem poderia imaginar... Mesmo em um dia banal, alguém está encostado em uma piscina de fibra, olhando para o céu de múltiplas interpretações com um semblante incomum, profundamente pensativo; com os braços apoiados na borda, um homem permanece imóvel, ele está absorto em seus pensamentos e parece nem sentir a água refrescante tocar a sua pele. Em um dia pacato, comum, ele apresenta uma aparência profundamente consternada, como que se estivesse desesperado. Essa feição é tão discrepante, mas tão discrepante, quando comparada ao ambiente em que esse homem se encontra, que tudo à sua volta parece não ter mais nenhuma importância; o dia banal se torna um cenário de fundo, longínquo e irrelevante. Aquele rosto incomum e profundo é capaz de atrair todos os olhares, fazendo com que tudo à sua volta se torne irrelevante. É impossível não prestar atenção, é improvável que alguém não se sentiria atraído, ou, melhor dizendo, seria incomum alguém não se sentir sensibilizado e magnetizado por aquele fenômeno incomum, sentindo-se, qualquer um, obrigado a chegar mais perto, necessitando enxergar melhor, entender melhor aquilo que tanto encantava; como que hipnotizadas, as pessoas se aproximariam, tentando chegar o mais próximo possível, chegando perto, cada vez mais perto, hipnotizadas por aqueles olhos castanho escuro profundos, até que batessem na testa daquele homem solitário, desse modo se tornando perceptível o limite, o máximo de aproximação que podem alcançar. Mesmo suscitando toda essa curiosidade, ele permanece sozinho, isolado, absorto em pensamentos que parecem ser penosos, mas que não nos é possível entender por completo. Talvez seja esse mistério que tanto nos fascina, e também nos faz perguntar: “O que será que incita pensamento assim tão profundos?” “Será que esse homem enxerga coisas que nós nunca seremos capazes nem de imaginar?”

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Anotação aleatória

Sinto que estou próximo a mais um daqueles momentos onde minha mente parece transbordar e é preciso encontrar uma válvula de escape para dispersar todo esse turbilhão, que, se não direcionado a algo, pode acabar por incomodar ainda mais. No entanto, não me incomodo com esse ímpeto profundo, que sempre se acumula em mim e exige um ato que prometa sanar alguma carência profunda da nossa mentalidade, muito pelo contrário, gosto dele; ele impulsiona tentativas, jogos, decisões, e isso é bom, satisfazer a necessidade mais profunda da existência não é o suficiente para mim.
Por fim, deixo-me enganar; crio uma alma para mim, e jogo, e brinco, e me divirto, e experimento, e arrisco, geralmente faço todas essas coisas ao mesmo tempo, é interessante. Mas, mesmo nesse meu ambiente extremamente consciente, às vezes me surpreendo; quase sempre essa surpresa ocorre pelo fato de eu ver alguém realmente levando algo a sério; quando me deparo com isso, fico me perguntando: “ Será que essa pessoa não conhece as coisas de verdade?” “Por que ela leva tudo tão a sério?” Não perco muito tempo com esses pensamentos, uma breve observação torna evidente o quanto essas pessoas, que me assustam, são ignorantes e cegas; sem possuírem a capacidade de pensar por si próprias elas perseguem ideais inalcançáveis, elas estão sempre se distraindo, correndo atrás de algo e evitando, a todo custo, qualquer momento de reflexão, por menor que seja. Sem questionarem nada, sem realmente entender nada, essas pessoas vagam cegas pela vida, criando almas diminutas, imutáveis e inquestionáveis, o que faz com que o verdadeiro desejo da mente permaneça ainda mais distante, ainda mais inalcançável. Essa distância absurda, entre aquilo que somos e aquilo que realmente queremos, faz com que as pessoas se sintam extremamente impulsionadas a fazer algo para alterar essa sua condição, faz com que elas se sintam cheias de energia, e prontas para direcionarem essa energia para alguma atividade, para alguma válvula de escape que prometa sanar o nosso desejo mais profundo. Ver essas pessoas traçarem objetivos e se arriscarem em empreitadas e tentativas intermináveis me incomoda; uma vida inexplorada e em completa ignorância sempre me incomodou, e muito.
Entretanto, não me revolto por completo com essas pessoas, que infelizmente são a maioria daqueles que encontro no dia-a-dia, pois, até mesmo eu, com o auxílio de todo o meu conhecimento, às vezes não consigo estabelecer uma meta que me incentive a agir. Meu mundo despreocupado é perfeito, ele se aproxima da realidade, mas não quero viver como um asceta, que abandona o mundo estruturado pelos seres humanos e vive encerrado em meio ao seu êxtase absoluto, em meio ao seu conhecimento perfeito e abrangente; esse tipo de existência asceta é absurdamente apática, é absurdamente estática. Eu sei que nada realmente importa, mas é preciso que ampliemos o nosso conhecimento, ampliemos nossas experiências, e para que isso ocorra é preciso que arrisquemos de verdade, e para arriscarmos de verdade é preciso que nos iludamos, é preciso que acreditemos que aquilo a que nos propomos fazer irá realmente proporcionar o que a nossa mente realmente almeja. É nesse tipo de ilusão construtiva que me proponho a brincar de vez em quando, mas que às vezes não sou capaz.
Não sei ao certo qual é o motivo dessa minha incapacidade; sei que não é preguiça, nem medo de perder tempo com algo — a muito já deixei de sentir isso, e foi uma longa jornada até que eu me desvencilhasse desse medo de perder tempo e do afunilamento da vida —; o que ocorre é um pouco mais complexo: a minha imaginação, por mais poderosa que me pareça ser, às vezes não consegue instaurar os motivos certos, que me incitem a dedicar-me a alguma tarefa em específico.
Não é sempre que essa incapacidade ocorre, para falar a verdade, ela é um tanto incomum. Antigamente, a incapacidade de me dedicar a um ideal criado por mim era ainda mais recorrente, sendo praticamente constante; naquela época eu poderia me surpreender se me dedicasse a alguma atividade que eu realmente desejasse. Felizmente, tudo mudou quando consegui identificar uma estrutura psíquica destrutiva, que me incitava a agir, quase que desesperadamente. Talvez, essa minha classificação pareça estranha, mas ela é mais simples do que parece; Jung caracteriza-a como sendo a sombra, como sendo uma condição absurda que proporciona uma quantidade absurda de ímpeto e energia; a sombra pode ser considerada um momento de desespero extremo, onde aquilo que mais importa para nós está prestes a ser aniquilado, e, perante a destruição da nossa representação do mundo, arriscamo-nos sem pudor, sem receios, para que possamos salvar aquilo que para nós é importante. Após identificar a minha sombra, passei a utilizá-la constantemente, com o intuito de me dedicar aos objetivos que eu propunha para mim.
Outro aspecto que facilitava a definição de qualquer objetivo era a ausência de arquétipos; por não possuir um ideal, eu me sentia cheio de energia, cheio de vontade — em alguns momentos essa vontade chegava a ser assustadora, por causa de sua potência e a falta de um ideal que amenizasse toda essa potência violenta —; sem objetivos pré-estabelecidos, tornei-me capaz de direcionar minha vontade para onde eu bem entendesse, sem que para isso fosse preciso me desvencilhar de uma estrutura, de uma forma de me posicionar perante o mundo, tarefa que exigiria muito, muito mesmo, de mim. Talvez, desvencilharmo-nos de um arquétipo seja uma das tarefas mais complicadas que existem, mas após realizada nosso conhecimento e controle sobre o intelecto se tornam absurdamente desenvolvidos.
Todas essas características me proporcionaram habilidades incríveis; todo o meu conhecimento, conquistado com muito sangue e suor, permitia que eu enxergasse o mundo e a vida de forma abrangente, da forma mais próxima daquilo que as coisas realmente são, sem que me sentisse oprimido perante tantas possibilidades, tanto vazio, tantas dúvidas, tantas impressões.

Mergulho

       Sentir as dores e a doença da alma é importante para que possamos identificar os mecanismos que são utilizados por determinadas doutrinas, assim entendendo a relação de alguns conceitos com a vida das pessoas e, acima de tudo, descobrindo como as coisas realmente funcionam e são estruturadas. Uma jornada rumo a condições deploráveis de existência parece um absurdo, mas não é, muito pelo contrário, é uma empreitada profunda e esclarecedora, que requer coragem. Quando retornamos das profundezas do espírito, tudo parece diferente; sentimos uma nova felicidade, mais abrangente, inabalável e intensa; sentimos uma confiança irredutível, mantida por conceitos profundos e que foram verificados; abandonamos todas as esperanças e expectativas, o que, ao contrário do que todos pensam, é a melhor coisa que pode acontecer conosco; tornamo-nos sensíveis a todas as alegrias e inabaláveis perante toda mediocridade; deixamos de nos sentir reprimidos pelo mistério e a incerteza da vida. O retorno desses aventureiros raros é sempre triunfal, podendo ser percebido em sua expressão facial e em cada gesto. Eles tornaram-se seres profundamente superficiais, e estão prontos para refutar qualquer conceito descabido.

Sobre os sentimentos

         A psicanálise instaura que os sentimentos provêm dos instintos, mas isso é absurdo. Os instintos são condutas definidas pela nossa alma, pela nossa forma de nos posicionarmos no mundo, são imposições provenientes da maneira como foi moldado o nosso ser e, dessa forma, determinam o nosso prazer e desprazer, ou, melhor dizendo, direcionam o que é considerado como aumento ou diminuição da potência. A satisfação dos instintos não é o nosso móbil mais profundo, nossa verdadeira constituição repousa além dos instintos, sendo que a satisfação dos mesmos supre necessidades mais profundas e essenciais.